terça-feira, 28 de junho de 2011
terça-feira, 31 de maio de 2011
O príncipe cruel
Do seu alto trono ele observava, silencioso, esperando notícias do que quer que fosse. Coroa na cabeça e ceptro na mão, sentado, eternamente, ele esperou. Da sua história eu partilho um bocado, o que vi, o que senti, o que ouvi. Com calma chegaremos ao entendimento da minha devoção, começando por o odiar, depois por o entender, sem que dêem conta já o terão na mente de bom grado e finalmente darão a vossa palavra de lealdade para com este rei que há muito se rendeu na sua última e derradeira batalha, a sua vida.
Começando a fábula, há muitos Invernos atrás, não vale a pena conta-los, só nos atrasaria na história, existiu um reino governado por tiranos. Geração atrás de geração, tirano atrás de tirano, eles vivam para o seu prazer, roubavam ao seu povo, violavam, provocavam guerras e alimentavam-se do sangue que faziam derramar em seu nome. Este rei foi mais um dessa linhagem. E sem dúvida deixou os seus ancestrais orgulhosos. Continuou a sua tradição. Talvez nem a tenha continuado mas sim dado-lhe uma nova definição, mais violenta, mais sangrenta, menos nobre.
Aos seus tenros dez anos, sendo educado nas várias artes da espada ao mesmo tempo que aprendia novas estratégias de guerra, este jovem príncipe foi chamado pelo seu pai que lhe propôs um desafio, um teste às suas virtudes e ao seu direito ao trono. Teria de matar o seu melhor amigo. Ele fê-lo, de bom grado. Nem um momento de hesitação. Colocados frente a frente na arena, apenas o seu pai como público. O seu amigo tremia, chorava, berrava que não o queria matar, que queria muitos mais anos ao seu lado, a servi-lo fielmente através dos tempos com a sua espada e escudo. Ele, jovem e sádico, com um sorriso rasgado na face, olhos psicopatas que seguiam todos os movimentos do seu amigo. Avançou e apenas um assobio do vento avisou o movimento da espada mesmo antes desta entrar pelo peito do amigo antes de sair e cortar a garganta ao jovem enquanto que este abriu os olhos o máximo que conseguia numa expressão de incredulidade.
Meses e anos passaram e ele sempre viveu feliz com a sua decisão naquele dia. A partir daí até os seus servos tinham medo de serem mortos de um momento para o outro, servos que sempre o amaram e lhe deram o carinho que ele não recebia do seu pai. Depois disso, nunca mais.
Aos quinze marchava para a sua primeira batalha. Mestre do seu contingente, ordenou-os e destruiu os seus inimigos. Com tácticas superiores que ele próprio desenhou por noites em claro derrotou os seus adversários numa questão de minutos, o seu pai a ver ao longe sentindo um misto de orgulho, surpresa e medo. Os que sobreviveram e se renderam viveram tempo suficiente para se arrependerem da sua decisão. Ele prendeu-os e torturou-os pessoalmente, por gozo próprio, retirando apenas informação de onde viviam. Assim que eles suplicassem que parasse e lhe jurassem lealdade ele abria-os e tirava-lhes o coração com as mãos enquanto eles gritavam de agonia. Um último suspiro de alegria por o terror ter acabado e fechavam os olhos. Durante as noites ele levava um grupo de soldados e destruía as aldeias dos mortos, deixava os soldados saquear tudo o que quisessem enquanto ele violava as mulheres dos seus falecidos prisioneiros. Depois cortava-lhes as gargantas enquanto elas choravam encolhidas em cima da cama.
Começando a fábula, há muitos Invernos atrás, não vale a pena conta-los, só nos atrasaria na história, existiu um reino governado por tiranos. Geração atrás de geração, tirano atrás de tirano, eles vivam para o seu prazer, roubavam ao seu povo, violavam, provocavam guerras e alimentavam-se do sangue que faziam derramar em seu nome. Este rei foi mais um dessa linhagem. E sem dúvida deixou os seus ancestrais orgulhosos. Continuou a sua tradição. Talvez nem a tenha continuado mas sim dado-lhe uma nova definição, mais violenta, mais sangrenta, menos nobre.
Aos seus tenros dez anos, sendo educado nas várias artes da espada ao mesmo tempo que aprendia novas estratégias de guerra, este jovem príncipe foi chamado pelo seu pai que lhe propôs um desafio, um teste às suas virtudes e ao seu direito ao trono. Teria de matar o seu melhor amigo. Ele fê-lo, de bom grado. Nem um momento de hesitação. Colocados frente a frente na arena, apenas o seu pai como público. O seu amigo tremia, chorava, berrava que não o queria matar, que queria muitos mais anos ao seu lado, a servi-lo fielmente através dos tempos com a sua espada e escudo. Ele, jovem e sádico, com um sorriso rasgado na face, olhos psicopatas que seguiam todos os movimentos do seu amigo. Avançou e apenas um assobio do vento avisou o movimento da espada mesmo antes desta entrar pelo peito do amigo antes de sair e cortar a garganta ao jovem enquanto que este abriu os olhos o máximo que conseguia numa expressão de incredulidade.
Meses e anos passaram e ele sempre viveu feliz com a sua decisão naquele dia. A partir daí até os seus servos tinham medo de serem mortos de um momento para o outro, servos que sempre o amaram e lhe deram o carinho que ele não recebia do seu pai. Depois disso, nunca mais.
Aos quinze marchava para a sua primeira batalha. Mestre do seu contingente, ordenou-os e destruiu os seus inimigos. Com tácticas superiores que ele próprio desenhou por noites em claro derrotou os seus adversários numa questão de minutos, o seu pai a ver ao longe sentindo um misto de orgulho, surpresa e medo. Os que sobreviveram e se renderam viveram tempo suficiente para se arrependerem da sua decisão. Ele prendeu-os e torturou-os pessoalmente, por gozo próprio, retirando apenas informação de onde viviam. Assim que eles suplicassem que parasse e lhe jurassem lealdade ele abria-os e tirava-lhes o coração com as mãos enquanto eles gritavam de agonia. Um último suspiro de alegria por o terror ter acabado e fechavam os olhos. Durante as noites ele levava um grupo de soldados e destruía as aldeias dos mortos, deixava os soldados saquear tudo o que quisessem enquanto ele violava as mulheres dos seus falecidos prisioneiros. Depois cortava-lhes as gargantas enquanto elas choravam encolhidas em cima da cama.
Introdução ao rei
Ainda a noite aclara e já se ouve um novo som de aviso. Vem aí uma nova tempestade...
segunda-feira, 30 de maio de 2011
A rua através da janela alta
Olhar frio pela janela alta para a rua desconhecida lá fora. Cá dentro há um calor antigo que dei como falecido há muito tempo. Memórias que se desvaneceram com o tempo, talvez não tenham sido fortes o suficiente para cá ficar, só deixaram a impressão na mente para não me esquecer que vivi naqueles tempos. Fico nesta janela a olhar lá para fora enquanto a chuva cai e ela desespera por reconhecimento cá dentro. Deixo-me ir na corrente de pensamentos que me atravessa a mente neste momento, não deixo de admirar a rua. Esta rua que é uma parte integrante da alma de Lisboa e que eu desconheço, sendo cidadão da mesma, partilhando a minha alma com esta cidade. E ela vive aqui. E eu desconheço-a. Conheci-a em tempos passados. Mas esses tempos passados foram lavados por tempos mais recentes e agora já não distingo a sua face da multidão. Chove cá dentro enquanto chora lá fora.
Novas emoções percorrem-nos todos os dias, é algo natural, não o podemos evitar. Podemos, no entanto, repetir o ciclo. A informação chega-nos ao cérebro e é assimilada. Se a melancolia nos conquista nada podemos fazer para evitar sentir falta do que já tivemos. Tenha sido um sorriso, uma caminhada pelos vales e montanhas que rodeiam as casas de Verão, uma volta de bicicleta para algures mais escondido para mostrar um sorriso reservado. A melancolia cai-nos pesadamente no dia e rasga-nos a alma. Não o podemos evitar. Tal como não podemos evitar o tempo passar e a vida mudar-nos. O que ontem foi alegria hoje pode ser indiferença. Tudo muda e a falta de contacto distancia-nos tanto até ao ponto de sermos irreconhecíveis um para o outro. E por isso não se pode dizer que não mudei. Tirando o cabelo, a barba, os óculos, ect. Mudei, nem que tenha sido interiormente. Abri os olhos, por assim dizer. E fechei a boca. Suspiro. Ela mantém o seu olhar incrédulo, boca semi-cerrada, à espera de algo em mim que mostre que tudo o que disse é absurdo. Mantenho-me quieto.
Não a posso culpar pela falta de contacto. Foi tanto culpa dela como minha. Nenhum de nós procurou o outro durante toda esta década. Seria injusto deixar a culpa toda nas costas dela e esperar que ela carregasse esse fardo ao mesmo tempo que procurasse uma forma de voltarmos ao que éramos. Por isso abro uma porta na minha alma para que ela volte a entrar, uma hipótese para que, com o decorrer do tempo, com muita conversa e passar de novo pelo processo de nos conhecermos, consigamos ser outra vez amigos e passar não apenas uma década assim mas muitas mais. Através da tarde e até depois da chuva acabar e a rua escurecer de vez histórias são contadas e dá-se como terminada um tensão, um nervosismo que dominava a nossa conexão. Agora somos mais do que meras memórias do passado, somos companhia do presente que observa a chuva primaveral a cair através da janela alta na rua da alma da cidade, uma parte minha, outra dela. E o adeus foi simples, amanhã choverá outra vez certamente.
Novas emoções percorrem-nos todos os dias, é algo natural, não o podemos evitar. Podemos, no entanto, repetir o ciclo. A informação chega-nos ao cérebro e é assimilada. Se a melancolia nos conquista nada podemos fazer para evitar sentir falta do que já tivemos. Tenha sido um sorriso, uma caminhada pelos vales e montanhas que rodeiam as casas de Verão, uma volta de bicicleta para algures mais escondido para mostrar um sorriso reservado. A melancolia cai-nos pesadamente no dia e rasga-nos a alma. Não o podemos evitar. Tal como não podemos evitar o tempo passar e a vida mudar-nos. O que ontem foi alegria hoje pode ser indiferença. Tudo muda e a falta de contacto distancia-nos tanto até ao ponto de sermos irreconhecíveis um para o outro. E por isso não se pode dizer que não mudei. Tirando o cabelo, a barba, os óculos, ect. Mudei, nem que tenha sido interiormente. Abri os olhos, por assim dizer. E fechei a boca. Suspiro. Ela mantém o seu olhar incrédulo, boca semi-cerrada, à espera de algo em mim que mostre que tudo o que disse é absurdo. Mantenho-me quieto.
Não a posso culpar pela falta de contacto. Foi tanto culpa dela como minha. Nenhum de nós procurou o outro durante toda esta década. Seria injusto deixar a culpa toda nas costas dela e esperar que ela carregasse esse fardo ao mesmo tempo que procurasse uma forma de voltarmos ao que éramos. Por isso abro uma porta na minha alma para que ela volte a entrar, uma hipótese para que, com o decorrer do tempo, com muita conversa e passar de novo pelo processo de nos conhecermos, consigamos ser outra vez amigos e passar não apenas uma década assim mas muitas mais. Através da tarde e até depois da chuva acabar e a rua escurecer de vez histórias são contadas e dá-se como terminada um tensão, um nervosismo que dominava a nossa conexão. Agora somos mais do que meras memórias do passado, somos companhia do presente que observa a chuva primaveral a cair através da janela alta na rua da alma da cidade, uma parte minha, outra dela. E o adeus foi simples, amanhã choverá outra vez certamente.
sábado, 28 de maio de 2011
Através dos bosques
Sinto uma tranquilidade crescente, chegando tardiamente, através da noite, pela melodia. O som das flautas e dos violinos fazem-me ver as árvores que tapam o Sol, numa tarde que anuncia o seu fim num mundo apenas meu. As teclas do piano fazem-me olhar em frente e ver o lago que tranquilo dorme esperando a noite para inundar os meus sonhos com visões do amanhã e memórias do ontem. As mãos passam pelas cordas da guitarra clássica e o som sai tão naturalmente, deixando-me tão confortável, entrando na casa de madeira que construí com a minha mente, à orla da floresta, à beira do lago, aqui está o meu coração, onde ecoa a melodia de tempos em que os meus pés não tinham pisado a terra, oferecida a nós, ainda por fazer merecer tal honra.
A mente deriva e uma pergunta deriva no ar: que é um Homem sem a sua fé, qualquer que seja ela, mesmo não sendo uma crença religiosa, apenas uma filosofia, um objectivo, um caminho? Um homem quebrado. Tal como me sinto agora. Agarrado ao passado, esperando que este se venha a encontrar com o futuro. E um homem quebrado não tem vontade, não tem forças. Por isso derivo conforme o vento sopra acima da água do lago, deixo-me ir porque a corrente é demasiado forte. E espero encontrar uma cascata que me force a parar e retomar o meu caminho ou que me deixe cair para o mais pequeno recanto da floresta e aí meditar, acalmar, durante dias e noites. Talvez depois volte a andar e tentar encontrar o caminho para casa onde a música paira no ar, esperando por mim, debaixo de chuva ou Sol, dia ou noite.
O bosque esconde-me de tudo o resto lá fora. E tudo o resto lá fora é uma parte de mim que deixei para trás. Não deixa saudades. Talvez até deixe mas recuso-me a encara-lo tão facilmente. E deixo as sombras das árvores abaterem-se sobre a minha casa, serenando-me o espírito com canções de segredos e de tempos para vir, profetizados por tantos que apenas em lendas sabem ser verdadeiros. Ao som dessas canções pesam-me as pálpebras e fecho os olhos, durmo um sono profundo que sei ser leal. Sonho dentro de um sonho, com dragões, castelos e cavaleiros, poções mágicas e feitiços. Desenlaces de vidas passadas que sei na minha mente serem minhas e de mais ninguém. E não espero que mais ninguém compreenda o seu verdadeiro significado, apenas por bosques vagueando e nos bosques se perdendo encontramos a alma que julgámos há tanto tempo perdida.
A mente deriva e uma pergunta deriva no ar: que é um Homem sem a sua fé, qualquer que seja ela, mesmo não sendo uma crença religiosa, apenas uma filosofia, um objectivo, um caminho? Um homem quebrado. Tal como me sinto agora. Agarrado ao passado, esperando que este se venha a encontrar com o futuro. E um homem quebrado não tem vontade, não tem forças. Por isso derivo conforme o vento sopra acima da água do lago, deixo-me ir porque a corrente é demasiado forte. E espero encontrar uma cascata que me force a parar e retomar o meu caminho ou que me deixe cair para o mais pequeno recanto da floresta e aí meditar, acalmar, durante dias e noites. Talvez depois volte a andar e tentar encontrar o caminho para casa onde a música paira no ar, esperando por mim, debaixo de chuva ou Sol, dia ou noite.
O bosque esconde-me de tudo o resto lá fora. E tudo o resto lá fora é uma parte de mim que deixei para trás. Não deixa saudades. Talvez até deixe mas recuso-me a encara-lo tão facilmente. E deixo as sombras das árvores abaterem-se sobre a minha casa, serenando-me o espírito com canções de segredos e de tempos para vir, profetizados por tantos que apenas em lendas sabem ser verdadeiros. Ao som dessas canções pesam-me as pálpebras e fecho os olhos, durmo um sono profundo que sei ser leal. Sonho dentro de um sonho, com dragões, castelos e cavaleiros, poções mágicas e feitiços. Desenlaces de vidas passadas que sei na minha mente serem minhas e de mais ninguém. E não espero que mais ninguém compreenda o seu verdadeiro significado, apenas por bosques vagueando e nos bosques se perdendo encontramos a alma que julgámos há tanto tempo perdida.
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Hoje as saudades batem
Hoje as saudades batem à janela como a chuva que se esqueceu de cair durante o Inverno. Batem fortemente, consolidam a escuridão da noite. Trazem um horizonte turvo, imensamente iluminado por prédios e lâmpadas de rua distantes. Trazem lágrimas aos olhos que reprimo com o máximo esforço, levam o punho à parede e o sangue à mão agora distorcida, em breve inchada. Rapidamente se alastram pela mente como um rio cuja nascente é a alma. Passam memórias, visões, tempos passados que depois de tanto tempo enjaulados gritam, libertos da tirania da supressão de alguém que foi magoado e ainda não recuperou totalmente. Controlam a noite e movimentam-me as mãos, fazem-me preferir estar sentado na escuridão a partilhar a luz com outrem.
Desenhos na parede, deformações dentro da mente que foram vomitadas cá para fora, violentamente crescendo dentro de si, um gato que caminha levemente e se aconchega na cama, um imenso quarto com fotografias, memórias, traições e felicidades. Nunca tive hipótese de o explorar. Sempre imaginei, no entanto, estar a dormir com ela nos meus braços, o gato no fundo da cama, deitados num canto do quarto com a parede a branco a implorar-nos para a preencher com o resultado da nossa simbiose. Era esse o sonho. Até um dia maligno de Inverno ele ter sido apagado forçosamente e trocado por um vazio doloroso que ainda não foi eliminado. No dia seguinte apenas a chuva torrencial conseguiu aparar a mágoa com que ainda me debato.
Hoje as saudades batem à porta. Familiarizadas com o quarto, sentam-se num quarto e lá ficam, lentamente morrendo, levando-me com elas para uma escuridão a que já estou habituado. O tempo passa, continuamente, aqui nada muda. Não mudo eu, não muda o espaço, não muda o ar que se respira. O quarto mantém-se igual desde que ela cá passou, uma noite perfeita que consegui olhar-lhe para a profundeza dos olhos e tocar-lhe na alma. Dormimos juntos e na manhã seguinte ela entrou no barco e caminhou para as brumas que escondiam a sua casa. Deixou-me para trás, desolado, querendo um pouco mais da noite que morreu. A memória leva a mais um quadro de palavras na mente e tudo é deixado para trás. Amanhã terá novas caras e novos acidente da vida. Mas ela permanece aqui, no seu trono, intocável, imutável.
Desenhos na parede, deformações dentro da mente que foram vomitadas cá para fora, violentamente crescendo dentro de si, um gato que caminha levemente e se aconchega na cama, um imenso quarto com fotografias, memórias, traições e felicidades. Nunca tive hipótese de o explorar. Sempre imaginei, no entanto, estar a dormir com ela nos meus braços, o gato no fundo da cama, deitados num canto do quarto com a parede a branco a implorar-nos para a preencher com o resultado da nossa simbiose. Era esse o sonho. Até um dia maligno de Inverno ele ter sido apagado forçosamente e trocado por um vazio doloroso que ainda não foi eliminado. No dia seguinte apenas a chuva torrencial conseguiu aparar a mágoa com que ainda me debato.
Hoje as saudades batem à porta. Familiarizadas com o quarto, sentam-se num quarto e lá ficam, lentamente morrendo, levando-me com elas para uma escuridão a que já estou habituado. O tempo passa, continuamente, aqui nada muda. Não mudo eu, não muda o espaço, não muda o ar que se respira. O quarto mantém-se igual desde que ela cá passou, uma noite perfeita que consegui olhar-lhe para a profundeza dos olhos e tocar-lhe na alma. Dormimos juntos e na manhã seguinte ela entrou no barco e caminhou para as brumas que escondiam a sua casa. Deixou-me para trás, desolado, querendo um pouco mais da noite que morreu. A memória leva a mais um quadro de palavras na mente e tudo é deixado para trás. Amanhã terá novas caras e novos acidente da vida. Mas ela permanece aqui, no seu trono, intocável, imutável.
terça-feira, 24 de maio de 2011
Aos ventos
Que traz o vento na sua correria? Devastação, claramente. Desespero, subtilmente. O reflexo do vazio que nos percorre interiormente, talvez. É incerto, não se consegue dizer com segurança. Cada um sente algo diferente e o vento percorre com um fúria dentro de nós que tanto nos pode conquistar como afastar. Para mim é algo que me empurra para trás, uma força invisível que me afaga o cabelo ou que me refresca quando o Sol parece desejar pegar-me fogo. Traz-me frio aos ossos e enregela-me a pele, ajuda as folhas a cortá-la. É um amigo no Verão e um inimigo no Inverno. Nos intermédios é uma conhecido que lembro com saudades ou que me preparo para afastar.
Porque corre o vento? Quem sabe? Tenciona estar nalgum lado, tenciona controlar quem passa por onde, ajudar o destino a concretizar-se, abraçar alguém, quem quer saber? Lá fora ele sopra, forte ou fraco, não interessa. Serena-me a noite, permite-me entrar no sono. E aí, apenas aí, agradeço-lhe. A sua presença refrescante nas quentes noites de Verão em que os lençóis existem apenas para queimar a pele, quando andar sobre o luar ainda nos faz querer tirar a roupa, deitar na areia, dar um mergulho na água, é essencial, benéfica, bem-vinda. E altera a nossa mente, permite relaxar, tranquiliza a alma. Paramos para olhar para o horizonte, porque podemos, porque estar parado já não é tão exaustivo. É um abraço amigável e fresco numa noite tão abrasadora.
Deixando Boreas abandonar o seu posto como líder do céu, dando o seu lugar a Zérfiro. Deixando o Verão aproximar-se, a alvorada chama por aquele que aclama os Ventos muito depois de a humanidade ter perdido fé nestes e estes terem deixado os humanos à mercê da sua indiferença.
Porque corre o vento? Quem sabe? Tenciona estar nalgum lado, tenciona controlar quem passa por onde, ajudar o destino a concretizar-se, abraçar alguém, quem quer saber? Lá fora ele sopra, forte ou fraco, não interessa. Serena-me a noite, permite-me entrar no sono. E aí, apenas aí, agradeço-lhe. A sua presença refrescante nas quentes noites de Verão em que os lençóis existem apenas para queimar a pele, quando andar sobre o luar ainda nos faz querer tirar a roupa, deitar na areia, dar um mergulho na água, é essencial, benéfica, bem-vinda. E altera a nossa mente, permite relaxar, tranquiliza a alma. Paramos para olhar para o horizonte, porque podemos, porque estar parado já não é tão exaustivo. É um abraço amigável e fresco numa noite tão abrasadora.
Deixando Boreas abandonar o seu posto como líder do céu, dando o seu lugar a Zérfiro. Deixando o Verão aproximar-se, a alvorada chama por aquele que aclama os Ventos muito depois de a humanidade ter perdido fé nestes e estes terem deixado os humanos à mercê da sua indiferença.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Medo
O espaço conquista-se nas ruas,
Na sua bela, profunda escuridão,
Demonstrando tudo o que o coração sente,
Sempre receoso, escondido,
Por cidades e vilas que reclama suas,
Em poemas de tristeza e solidão,
Tentando acreditar no que diz mas sempre sabendo que mente,
À sua falsidade rendido.
Observando o oceano e vendo aproximar as brumas,
Foge em pânico por meio da confusão
Alastrada na rua pelo povo inconsciente,
Movido por um medo desmedido,
Receando o poder escondido das luas
Passadas mas que ainda a mente e o coração conquistam,
Concebidas para dar força a qualquer crente
Com o seu lugar nas estrelas merecido.
Ali se encontra um lugar
Onde se pode sentar e descansar,
Por pouco tempo e mal contado,
Por medo negação criado.
Na sua bela, profunda escuridão,
Demonstrando tudo o que o coração sente,
Sempre receoso, escondido,
Por cidades e vilas que reclama suas,
Em poemas de tristeza e solidão,
Tentando acreditar no que diz mas sempre sabendo que mente,
À sua falsidade rendido.
Observando o oceano e vendo aproximar as brumas,
Foge em pânico por meio da confusão
Alastrada na rua pelo povo inconsciente,
Movido por um medo desmedido,
Receando o poder escondido das luas
Passadas mas que ainda a mente e o coração conquistam,
Concebidas para dar força a qualquer crente
Com o seu lugar nas estrelas merecido.
Ali se encontra um lugar
Onde se pode sentar e descansar,
Por pouco tempo e mal contado,
Por medo negação criado.
domingo, 22 de maio de 2011
Vazio
A verdade é complicada. É um espelho distorcido da mentira. Ou talvez até seja o contrário. Mas é essencial, para a maioria. O problema é que a maioria não sabe distinguir a verdade do mundo da verdade pessoal, do seu desejo. E por isso caminham ignorantes, esperançados ou negativos. E não sabem se estão talhados para receber a verdade, não há propriamente um teste que possam fazer para saber se estão aptos. Resta-lhes apenas a vida. E a vida é um teste, não só de inteligência ou de força, é também de resistência. É saber sobreviver os dias mais duros e solitários e prevalecer, levantar da cama no dia seguinte. Levantar no dia seguinte é ainda mais fácil do que sobreviver ao dia. A menos que seja um dia igual ao interior. A vida é muitas coisas mas não é injusta. Nós somos injustos, não sabemos encontrar equilíbrio na vida.
O dia começa pesado se passamos todas horas a empurrar as pessoas para fora da nossa vida. Construímos muros à nossa volta que nos fazem reservar os nossos pensamentos para nós próprios, trancamos-nos dentro de um quarto sem janelas nem portas, afastado de toda a realidade, onde podemos gritar à vontade sem que ninguém nos oiça. O Sol pode brilhar lá fora mas não se vê nada cá dentro, apenas sombras que se mexem, dançam, riem, gozam. Freneticamente, à nossa volta, usam-nos, abusam, cansam-nos até ao ponto em que já não nos conseguimos levantar, as sombras habitam-nos a mente, preenchem os pensamentos e os pesadelos, imagens repetidas que nos deixam à beira do desespero. E as horas passam, não nos levantamos, não queremos enfrentar o mundo lá fora. Apercebemos-nos do vazio que é, que somos, que nos define. E definhamos na cama, com o tempo.
Toda a gente trai, de uma forma ou de outra. Toda a gente mente, depende da definição da verdade. A ironia disto tudo é que a morte leva consigo todos os erros e ofensas e limpa o cadastro da vida da pessoa, tornando-a numa pessoa perfeita que antes toda a gente detestava mas que depois toda a gente iria ter saudades. Mais mentiras para preencher o vazio no interior. No dia seguinte levantar-se-aõ da cama como se nada se tivesse passado, nada tivessem dito. Um niilismo existente no nosso código genético que nos leva a ser tão merecedores da minha falta de confiança de raiva. Hipócrita? Sim, completamente. Mas completamente confiante de que exponho a minha realidade quando requisitada, ainda que magoe alguém, ainda que afaste mais uma pessoa, sendo as consequências passar um dia sozinho e senti-lo como se uma eternidade fosse.
O dia começa pesado se passamos todas horas a empurrar as pessoas para fora da nossa vida. Construímos muros à nossa volta que nos fazem reservar os nossos pensamentos para nós próprios, trancamos-nos dentro de um quarto sem janelas nem portas, afastado de toda a realidade, onde podemos gritar à vontade sem que ninguém nos oiça. O Sol pode brilhar lá fora mas não se vê nada cá dentro, apenas sombras que se mexem, dançam, riem, gozam. Freneticamente, à nossa volta, usam-nos, abusam, cansam-nos até ao ponto em que já não nos conseguimos levantar, as sombras habitam-nos a mente, preenchem os pensamentos e os pesadelos, imagens repetidas que nos deixam à beira do desespero. E as horas passam, não nos levantamos, não queremos enfrentar o mundo lá fora. Apercebemos-nos do vazio que é, que somos, que nos define. E definhamos na cama, com o tempo.
Toda a gente trai, de uma forma ou de outra. Toda a gente mente, depende da definição da verdade. A ironia disto tudo é que a morte leva consigo todos os erros e ofensas e limpa o cadastro da vida da pessoa, tornando-a numa pessoa perfeita que antes toda a gente detestava mas que depois toda a gente iria ter saudades. Mais mentiras para preencher o vazio no interior. No dia seguinte levantar-se-aõ da cama como se nada se tivesse passado, nada tivessem dito. Um niilismo existente no nosso código genético que nos leva a ser tão merecedores da minha falta de confiança de raiva. Hipócrita? Sim, completamente. Mas completamente confiante de que exponho a minha realidade quando requisitada, ainda que magoe alguém, ainda que afaste mais uma pessoa, sendo as consequências passar um dia sozinho e senti-lo como se uma eternidade fosse.
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