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terça-feira, 11 de outubro de 2011
Leõa (continuação)
Já várias noites tinham passado desde aquele beijo. Esse ainda arde na minha mente como uma floresta que se recusa a morrer, a ser recordada como cinzas. A sua textura, a carne dos seus lábios, o brilho nos seus olhos castanhos, tudo o que ainda não me esqueci. Perguntei-lhe pela sua história mas tudo o que recebi foi silêncio. O dia nasceu, deixei num táxi para casa e eu fui dormir. Ficou apenas a promessa de um novo passeio noutro dia. E esse dia veio, desgraça minha! Um breve passeio pelo parque em que ela me confessou todos os sonhos e segredos, pecados e virtudes. E tudo nisto veio a sua história, década e meia nos braços de um companheiro para uma noite o perder tão rapidamente quanto o teve. E enquanto as lágrimas lhe escorreram dos olhos segurei-a. A tarde passou, não houve problema, todos os dias voltávamos ao bar onde nos conhecemos, bebíamos um pouco, voltávamos para a minha casa e apaixonámos-nos um pouco mais. Até que ela apanhou o avião para o outro lado do mundo e eu a perdi tão rapidamente como ela perdeu o seu amor. Agora que penso nisso... o seu olhar sempre foi opaco, o seu sorriso vazio, as suas palavras sem significado.
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Leõa
O seu nome era Leõa. Conheci-a num bar. Eu estava sentado ao balcão a beber o meu copo de whisky depois de um dia quente de trabalho. Um dia tão quente que o gelo na minha bebida quase não tinha efeito. Ela entrou apática sempre a olhar para a frente, sem se importar com quem lá estava ou quem a observava. Nesta altura ainda não sabia o seu nome nem a sua história. Sentou-se no primeiro banco que encontrou e pediu o seu Martini, oferecendo ao empregado de balcão um sorriso em troca de um bom serviço. Com o copo na mão, a olhar para o líquido que lá se encontrava, foi bebendo enquanto a tarde passava. Atormenta-me ainda hoje a sua expressão triste de alma moribunda, o seu curto cabelo loiro a tapar-lhe o pouco que conseguia da cara. Confunde-me ainda mais o sorriso que punha na cara enquanto rejeitava todos os que se aproximavam para lhe falar. Foi pedindo bebida após bebida e rejeitando homem após homem, assim a observei nessa tarde. Até que a tarde passou a noite e ela pediu a conta, queria ir-se embora. Na altura de pagar reparou que não tinha nem dinheiro nem carteira consigo. Sendo que também me ia embora ofereci-me para pagar a sua dívida. Apesar de não ter dinheiro consigo, ela foi extremamente complicada para convencer em aceitar a minha oferta. Paguei e saí pela porta. Ela seguiu-me.
Eu caminhei lentamente as mesmas ruas de sempre de volta a casa, sempre a ouvir os seus passos atrás de mim. Inicialmente pensei que se dirigia para uma zona mais iluminada e que estava a aproveitar da minha companhia para se sentir mais segura, depois pensei que ela viveria na mesma zona que eu visto que estava a chegar a casa. Até que cheguei à porta do meu prédio e parei para olhar para o alto edifício, para as minhas janelas fechadas com ar de casa abandonada. E ela parou comigo, quase chocando comigo. Virei-me então para trás e perguntei-lhe que fazia ali, que queria de mim. Ela mostrou-me o mesmo sorriso que ofereceu aos outros homens e respondeu-me que apenas queria passar o tempo, quanto mais demorasse a chegar a casa, quanto mais distante de lá estivesse, mais feliz seria. Convidei-a a subir então, estava demasiado cansado para ter outra discussão como a que tive no bar e ela deveria estar demasiado longe de uma paragem do autocarro para voltar a casa dali. Fá-la-ia companhia até ser de dia e ela se decidir em chamar um táxi, decidi. Subi-mos, mostrei-lhe a casa, abri uma garrafa de vinho tinto e sentamos-nos no sofá a conversar.
A noite já ia alta e quase madrugada. As paredes já eram de uma textura indefinida e o sofá parecia ter vida própria, decidido a empurrar-nos para o chão. A certa altura ou na altura certa cedemos. Qual dos dois é o certo até este dia não sei. Caímos no chão e perdemos-nos num riso imparável. O seu riso adorável dessa noite - já dia - fez-me perceber que conseguia ouvi-lo para o resto da minha vida. Parei de rir e observei-a atentamente enquanto ela, despercebida do meu desespero e alegria ao observá-la, continuou a rir. Parou e olhou para o tecto, estendeu a mão e deixou-a cair de novo para junto do corpo como se algo lhe tivesse escapado o alcance, como se tivesse perdido o controlo de algo importante. Olhou séria para o tecto, virou-se para mim, sorriu novamente, pousou uma mão sobre a minha cara - este corpo meu que me escapou da consciência durante esses escassos minutos - e beijou-me. O dia nasceu.
Eu caminhei lentamente as mesmas ruas de sempre de volta a casa, sempre a ouvir os seus passos atrás de mim. Inicialmente pensei que se dirigia para uma zona mais iluminada e que estava a aproveitar da minha companhia para se sentir mais segura, depois pensei que ela viveria na mesma zona que eu visto que estava a chegar a casa. Até que cheguei à porta do meu prédio e parei para olhar para o alto edifício, para as minhas janelas fechadas com ar de casa abandonada. E ela parou comigo, quase chocando comigo. Virei-me então para trás e perguntei-lhe que fazia ali, que queria de mim. Ela mostrou-me o mesmo sorriso que ofereceu aos outros homens e respondeu-me que apenas queria passar o tempo, quanto mais demorasse a chegar a casa, quanto mais distante de lá estivesse, mais feliz seria. Convidei-a a subir então, estava demasiado cansado para ter outra discussão como a que tive no bar e ela deveria estar demasiado longe de uma paragem do autocarro para voltar a casa dali. Fá-la-ia companhia até ser de dia e ela se decidir em chamar um táxi, decidi. Subi-mos, mostrei-lhe a casa, abri uma garrafa de vinho tinto e sentamos-nos no sofá a conversar.
A noite já ia alta e quase madrugada. As paredes já eram de uma textura indefinida e o sofá parecia ter vida própria, decidido a empurrar-nos para o chão. A certa altura ou na altura certa cedemos. Qual dos dois é o certo até este dia não sei. Caímos no chão e perdemos-nos num riso imparável. O seu riso adorável dessa noite - já dia - fez-me perceber que conseguia ouvi-lo para o resto da minha vida. Parei de rir e observei-a atentamente enquanto ela, despercebida do meu desespero e alegria ao observá-la, continuou a rir. Parou e olhou para o tecto, estendeu a mão e deixou-a cair de novo para junto do corpo como se algo lhe tivesse escapado o alcance, como se tivesse perdido o controlo de algo importante. Olhou séria para o tecto, virou-se para mim, sorriu novamente, pousou uma mão sobre a minha cara - este corpo meu que me escapou da consciência durante esses escassos minutos - e beijou-me. O dia nasceu.
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