Já não há realmente tragédia. Há uma mistura de almas confusas e tristes, talvez perdidas, que choram nos cantos da amargura sobre os seus pequenos nós que têm demasiada preguiça em desembaraçar. É decepcionante, talvez triste, ver estas pessoas a passar pelas ruas tão desajeitadas, tão perdidas nos seus pensamentos de nada. Alegra-me muito mais olhar para cima e ver o azul do céu e o cinzento das nuvens. Alegra-me ainda mais, talvez me deixe eufórico, chegar a casa e ver paredes pintadas de branco à espera que eu as preencha novamente. Dia após dia, noite após noite elas suplicam. E eu, piedoso senhor, concedo-lhes misericórdia às cordas vocais e satisfaço-lhes o desejo. Elas ordenam-me o seu preenchimento com palavras e desenhos. Eu, bom servo, obedeço-lhes. E hoje vou voltar a ouvi-las. Vou ouvi-las e contar-lhes as histórias de todas estas pessoas. Histórias, dramas, falsas tristezas e mágoas. Prefiro os meus céus azuis ou nuvens cinzentas e paredes brancas qualquer dia da semana.
Já não há tragédias, deixaram-nas todas para o William. Deslumbram-se com essas palavras e desejam senti-las, desejam segui-las rigorosamente na sua vida para lhes atribuir algum significado. Então que aconteceu realmente à tragédia? Não sei. Não a tenho comigo. Certamente não têm estas pessoas. Gostava de dizer que a levou o corvo do Edgar ou que se calhar bebeu o veneno do William mas quem sabe, talvez a própria tragédia esteja numa rua qualquer a agarrar-se ao seu próprio veneno. Penso que o nome da tragédia se mancha em livros populares para adolescentes e crianças, fantasias femininas do que deveria ser romance, o vai não vai a que foram mal habituadas na sua adolescência. Ora aí está um belo exemplo de tragédia, a mente dos jovens corrompida pelas suas fantasias infantis. Façam-me o obséquio de silenciarem as vossas revoltas contra os meus pensamentos, estes pertencem-me e, tal como tudo o que me pertence, apenas eu posso revoltar-me e censurar.
Já não há tragédias, há iniquidades. Há pessoas más que fazem as coisas por mal. Há pessoas que fazem coisas más por necessidade. Mas não há tragédias. Tal como pergaminhos, as tragédias deixaram-se ir para as páginas da História para voltarem a ser referidas apenas ocasional para dar um sensação de hipérbole a uma história e não apenas a uma frase. Pois chamo-vos a todos lítotes. Chamo-vos a morte do potencial. Deixo, naturalmente, o assassínio das tragédias para depois ou para outra pessoa. Chamo-vos malditos, estragados. Vou pela minha eforia. Pelas minhas paredes, os meus céus e as minhas nuvens. Deitar-me na areia das paredes e ver tudo passar e em nada pensar. Relaxo muito melhor assim, invés de vos observar que nem mortos a pensar em vidas que nunca tiveram.
Audioslave - Like A Stone
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Se o povo não deixar... faço o mesmo mas de outra forma
Tenho a certeza que a maioria de vocês sabe o estado político-económico vivido em Portugal nestes dias.A Proposta Social Única foi grandemente contestada pelo povo português e o actual governo decidiu voltar atrás e tomar novas medidas para manter os portugueses pobres, simplesmente lhes deram outro nome. Tenho também a certeza de que estão com política até aos cabelos e é por isso que vou pegar neste assunto e falar de outra coisa relacionada: greves.
A definição de greve segundo o dicionário da página Priberam é a seguinte:
greve
(do francês grève)
Nas últimas duas semanas houve duas greves, ambas à quinta-feira, de metro. Na última greve também se pode contar com a participação da CP e a Rodoviária de Lisboa. Isto, como qualquer outra greve, fez com que os trabalhadores tirassem os carros das garagens, os alunos acordassem mais cedo ou mais tarde e os autocarros andassem mais cheios.
O meu caso pessoal foi o do aluno exemplar, como sempre fui, que acorda mais cedo para apanhar o autocarro. E isso é óptimo, a sério, adoro acordar mais cedo para estar na faculdade mais de um terço do meu dia! Adiante.
A modificação do meu trajecto passou pela troca do metro, livre de trânsito mas fechado devido à greve, por um autocarro que existe no dia-a-dia e que pára à frente da minha faculdade. Isto levou a que chegasse meia hora antes da aula com tempo para o meu pequeno-almoço. Considerei, naturalmente, o que aconteceria se tivesse apanhado o autocarro seguinte. Bom, segundo o relato de uma colega minha que o apanhou teria não só chegado mesmo em cima da hora da aula como teria passado a viagem dentro do que parecia ser uma lata de atum com pessoas que cheiravam, bom, a atum. Talvez chegar meia hora mais cedo não seja assim tão mau.
O primeiro efeito que se repara numa faculdade num dia de greve é que os corredores são percorridos por ocasionais sombras de alguém que ainda se dignou ao esforço de ir às aulas de manhã. Não me interpretem mal, é uma vista maravilhosa a dos corredores vazios e o silêncio a dominá-los. Uma vista já não tão maravilhosa é a de a sala estar tão vazia que uma pessoa não tem outra opção senão participar na aula das 8 da manhã! Os habituais "cromos" que se costumam sentar na fila da frente e praticamente acabam as frases dos professores decidiram ficar na cama. Este é o segundo efeito. Mas o dia, tal como a vida, prossegue.
A greve continua e a segunda aula, apesar de já estar mais "composta", continua a mostrar as verdadeiras consequências de uma greve. Os funcionários das respectivas empresas param durante umas horas do seu expediente para mostrar a sua revolta contra cortes nos salários, horas extra e despedimentos mas quem na realidade sofre com estas revoltas são as outras pessoas trabalhadoras e estudantes, já que são estes que realmente ouvem o que está a ser dito e não a quem a mensagem é destinada, os actuais governantes do país. Sofrem, entenda-se, não por ouvirem a mensagem mas pelo meio pela qual a mensagem é entregue. A paralisação de serviços públicos, abertos todos os dias, obrigam as pessoas a procurar soluções alternativas e a alterarem o seu horário em concordância.
Não querendo correr o risco de ser mal-interpretado eu esclareço o que aqui digo: eu sou completamente a favor de greves. Qualquer forma de manifesto do qual surjam resultados práticos são positivos. Simplesmente estou a tentar transmitir que estas greves não afectam ministros nem deputados pois todos estes viajam nos seus carros privados, o serviço público parado não os afecta. Talvez os faça chegar atrasados para o habitual almoço de luxo que vem com a profissão (leia-se dinheiro e posição). Longe de mim repudiar uma expressão de liberdade que é uma greve.
Então o povo pára. O povo "sai" para a rua e manifesta-se contra o corte nos seus direitos básicos e fazem entender a sua posição. A quem incomoda realmente isto? Faculdades vazias, filas enormes nas autoestradas, os consequentes atrasos para trabalhos e aulas (e pequeno-almoços). Essencialmente, ao povo trabalhador (não os do pequeno-almoço)! O povo não quer deixar que os planos prossigam. Pois faz-se o mesmo de outra forma. Mais do que isto se aplicar a mim e à minha situação de trocar o metro pelo autocarro, aplica-se aos cortes e à austeridade que mais faz parar o país e que causa novas greves. Greves essas que caem em ouvidos moucos e ouvidos impotentes para mudar a situação. Não peço o cessar das greves, longe disso. Apenas uma alternativa, a garantia de serviços mínimos. Isso e que as marquem com alguma mais separação ou outro dia da semana, um mais conveniente. Revoltem-se, levantem-se e gritem, imponham-se contra a mão invisível da tirania mas deixem os outros desgraçados seguirem os seus caminhos!
Já que já era esta música que eu estava a ouvir e não me lembrei nenhuma outra mais adequada, aqui está: Queen - White Man
A definição de greve segundo o dicionário da página Priberam é a seguinte:
greve
(do francês grève)
s. f.
Interrupção voluntária e colectiva de actividades ou funções, por parte de trabalhadores ou estudantes, como forma de protesto ou de reivindicação.
Nas últimas duas semanas houve duas greves, ambas à quinta-feira, de metro. Na última greve também se pode contar com a participação da CP e a Rodoviária de Lisboa. Isto, como qualquer outra greve, fez com que os trabalhadores tirassem os carros das garagens, os alunos acordassem mais cedo ou mais tarde e os autocarros andassem mais cheios.
O meu caso pessoal foi o do aluno exemplar, como sempre fui, que acorda mais cedo para apanhar o autocarro. E isso é óptimo, a sério, adoro acordar mais cedo para estar na faculdade mais de um terço do meu dia! Adiante.
A modificação do meu trajecto passou pela troca do metro, livre de trânsito mas fechado devido à greve, por um autocarro que existe no dia-a-dia e que pára à frente da minha faculdade. Isto levou a que chegasse meia hora antes da aula com tempo para o meu pequeno-almoço. Considerei, naturalmente, o que aconteceria se tivesse apanhado o autocarro seguinte. Bom, segundo o relato de uma colega minha que o apanhou teria não só chegado mesmo em cima da hora da aula como teria passado a viagem dentro do que parecia ser uma lata de atum com pessoas que cheiravam, bom, a atum. Talvez chegar meia hora mais cedo não seja assim tão mau.
O primeiro efeito que se repara numa faculdade num dia de greve é que os corredores são percorridos por ocasionais sombras de alguém que ainda se dignou ao esforço de ir às aulas de manhã. Não me interpretem mal, é uma vista maravilhosa a dos corredores vazios e o silêncio a dominá-los. Uma vista já não tão maravilhosa é a de a sala estar tão vazia que uma pessoa não tem outra opção senão participar na aula das 8 da manhã! Os habituais "cromos" que se costumam sentar na fila da frente e praticamente acabam as frases dos professores decidiram ficar na cama. Este é o segundo efeito. Mas o dia, tal como a vida, prossegue.
A greve continua e a segunda aula, apesar de já estar mais "composta", continua a mostrar as verdadeiras consequências de uma greve. Os funcionários das respectivas empresas param durante umas horas do seu expediente para mostrar a sua revolta contra cortes nos salários, horas extra e despedimentos mas quem na realidade sofre com estas revoltas são as outras pessoas trabalhadoras e estudantes, já que são estes que realmente ouvem o que está a ser dito e não a quem a mensagem é destinada, os actuais governantes do país. Sofrem, entenda-se, não por ouvirem a mensagem mas pelo meio pela qual a mensagem é entregue. A paralisação de serviços públicos, abertos todos os dias, obrigam as pessoas a procurar soluções alternativas e a alterarem o seu horário em concordância.
Não querendo correr o risco de ser mal-interpretado eu esclareço o que aqui digo: eu sou completamente a favor de greves. Qualquer forma de manifesto do qual surjam resultados práticos são positivos. Simplesmente estou a tentar transmitir que estas greves não afectam ministros nem deputados pois todos estes viajam nos seus carros privados, o serviço público parado não os afecta. Talvez os faça chegar atrasados para o habitual almoço de luxo que vem com a profissão (leia-se dinheiro e posição). Longe de mim repudiar uma expressão de liberdade que é uma greve.
Então o povo pára. O povo "sai" para a rua e manifesta-se contra o corte nos seus direitos básicos e fazem entender a sua posição. A quem incomoda realmente isto? Faculdades vazias, filas enormes nas autoestradas, os consequentes atrasos para trabalhos e aulas (e pequeno-almoços). Essencialmente, ao povo trabalhador (não os do pequeno-almoço)! O povo não quer deixar que os planos prossigam. Pois faz-se o mesmo de outra forma. Mais do que isto se aplicar a mim e à minha situação de trocar o metro pelo autocarro, aplica-se aos cortes e à austeridade que mais faz parar o país e que causa novas greves. Greves essas que caem em ouvidos moucos e ouvidos impotentes para mudar a situação. Não peço o cessar das greves, longe disso. Apenas uma alternativa, a garantia de serviços mínimos. Isso e que as marquem com alguma mais separação ou outro dia da semana, um mais conveniente. Revoltem-se, levantem-se e gritem, imponham-se contra a mão invisível da tirania mas deixem os outros desgraçados seguirem os seus caminhos!
Já que já era esta música que eu estava a ouvir e não me lembrei nenhuma outra mais adequada, aqui está: Queen - White Man
domingo, 30 de setembro de 2012
Smile
The smile may be shy,
The smile may be sly,
But it's always present,
Ally in the darkest moment,
When night comes down to conquer
But never able to force me to surrender,
When the silence may tame the mind
But never really cause a fright,
Because, love, your smile is always here
On my mind, making my lips move, wishing to be there.
Bush - Glycerine
The smile may be sly,
But it's always present,
Ally in the darkest moment,
When night comes down to conquer
But never able to force me to surrender,
When the silence may tame the mind
But never really cause a fright,
Because, love, your smile is always here
On my mind, making my lips move, wishing to be there.
Bush - Glycerine
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Para (re)começar [sem realmente acabar coisa nenhuma]
Bem, decidi dar um novo rumo a este blogue. Não é bem um novo rumo, é mais uma aquisição ao extenso repertório que já aqui se encontra. Não se trata de um novo visual ou textos mais ou menos poéticos. Diria que é algo de uma natureza mais pessoal, mais sincera. Uma nota das conclusões a que chego, vejo e conquisto. Não é algo a que possa chamar realmente de crónica ou texto de opinião, é mais algo a que alguns (vocês sabem quem são) chamarão de diário.
Comecemos pela minha vida actual. De férias (que estão a terminar), em casa dos pais, pobre tal como o resto do país e, ainda como o resto do país, à espera que o dinheiro caía do céu,
Pessoas envolvidas na minha vida: pai de férias que lentamente tenta controlar o universo informático e que me desliga os jogos para jogar os seus (o que me obriga a pôr password no computador e a bloqueá-lo quando não quero que ele mexa), mãe nas mesmas "férias" em que cerca de 15% da população portuguesa também está, três irmãs, todas elas fora de casa, um cunhado cuja testa se torna mais proeminente com cada dia que passa, dois sobrinhos que me fazem dizer que o tempo voa, uma namorada óptima que amo (e que, desde já, rosna a todas as minhas leitoras femininas não-familiares que não existem), um amigo que é independente de relações amorosas mas totalmente carente quando se trata de tarefas domésticas e não-domésticas, outro que conheço há anos mas que nunca vejo (isto na realidade aplica-se a dois), outro que sai de um relacionamento e já quer entrar noutro, uma amiga que não pode comer cheetos sem parecer um adolescente no auge da puberdade e outra que ainda não chamo amiga mas que tanto falei com ela que não podia deixar de a mencionar (e porque é ruiva!).
Creio que por esta altura já se estão a perguntar se este texto tem algum sentido ou se é apenas uma pequeno auto-biografia. Não se preocupem, eu também! Este pequeno grande discurso é, no fundo, uma introdução ao que há de novo por este deserto. E nesta introdução quero também dizer: odeio o meu curso, quero sair de casa, quero ser publicado, quero fazer sexo três ou mais vezes por dia, quero que todo o meu exercício mostre resultados e, pela última vez, não, não quero uma chucha!
Deixo-vos uma conclusão e uma pergunta. Conclusão: Podia estar pior e podia estar melhor, só não o estou porque não quero (sim, sim, já sei, já mo disseste um milhão de vezes!). Pergunta: Que característica intelectual permite identificar um génio mesmo que este pareça um idiota? Já me lembrei de várias mas têm sido "rejeitadas" por idiotas no literal sentido da palavra que também possuem tais características. A única que ainda não foi posta de parte é a capacidade de manipulação através de diálogo. Se tiverem qualquer outra teoria, digam-me. Desejo muito saber o que me falta, quanto custa e onde comprar! (certamente não em Portugal).
Beijos, (nada de) abraços e (sonhem com) muitos palhaços.
The End Has No End - The Strokes
Comecemos pela minha vida actual. De férias (que estão a terminar), em casa dos pais, pobre tal como o resto do país e, ainda como o resto do país, à espera que o dinheiro caía do céu,
Pessoas envolvidas na minha vida: pai de férias que lentamente tenta controlar o universo informático e que me desliga os jogos para jogar os seus (o que me obriga a pôr password no computador e a bloqueá-lo quando não quero que ele mexa), mãe nas mesmas "férias" em que cerca de 15% da população portuguesa também está, três irmãs, todas elas fora de casa, um cunhado cuja testa se torna mais proeminente com cada dia que passa, dois sobrinhos que me fazem dizer que o tempo voa, uma namorada óptima que amo (e que, desde já, rosna a todas as minhas leitoras femininas não-familiares que não existem), um amigo que é independente de relações amorosas mas totalmente carente quando se trata de tarefas domésticas e não-domésticas, outro que conheço há anos mas que nunca vejo (isto na realidade aplica-se a dois), outro que sai de um relacionamento e já quer entrar noutro, uma amiga que não pode comer cheetos sem parecer um adolescente no auge da puberdade e outra que ainda não chamo amiga mas que tanto falei com ela que não podia deixar de a mencionar (e porque é ruiva!).
Creio que por esta altura já se estão a perguntar se este texto tem algum sentido ou se é apenas uma pequeno auto-biografia. Não se preocupem, eu também! Este pequeno grande discurso é, no fundo, uma introdução ao que há de novo por este deserto. E nesta introdução quero também dizer: odeio o meu curso, quero sair de casa, quero ser publicado, quero fazer sexo três ou mais vezes por dia, quero que todo o meu exercício mostre resultados e, pela última vez, não, não quero uma chucha!
Deixo-vos uma conclusão e uma pergunta. Conclusão: Podia estar pior e podia estar melhor, só não o estou porque não quero (sim, sim, já sei, já mo disseste um milhão de vezes!). Pergunta: Que característica intelectual permite identificar um génio mesmo que este pareça um idiota? Já me lembrei de várias mas têm sido "rejeitadas" por idiotas no literal sentido da palavra que também possuem tais características. A única que ainda não foi posta de parte é a capacidade de manipulação através de diálogo. Se tiverem qualquer outra teoria, digam-me. Desejo muito saber o que me falta, quanto custa e onde comprar! (certamente não em Portugal).
Beijos, (nada de) abraços e (sonhem com) muitos palhaços.
The End Has No End - The Strokes
quarta-feira, 11 de julho de 2012
Deixamos o tempo passar
Cada nova paixão é um leque de cores repetidas, deixadas ao acaso sobre uma mesa à espera de serem escolhidas e espalhadas por paredes brancas, folhas vazias em que sentimentos são despejados sem pensamento. O que é deixado para trás é a memória de tudo o que já aconteceu, que se volta a repetir, vez sem conta, até o inevitável negro da morte nos tomar e finalmente silenciar. Silencioso é de facto, como a noite que se abate, suave como o toque de veludo. Percorre-nos por inteiro e deixa-nos vazios, a desejar mais. Mas como uma amante proibida, é algo que tocamos uma vez e não voltamos a sentir.
Sozinhos no escuro da noite sentimos-nos abandonados, solitários. Desesperados por companhia deixamos-nos levar pelo caminho da memória e da imaginação, sorrindo a cada detalhe, lutando batalhas imaginárias para ganharmos o coração de alguém que já possui o nosso. Mas a manhã é a assassina do pensamento. É a criadora cruel do desejo mas tudo o que saciamos não é tudo o que podemos aproveitar durante o dia por isso mantemos-nos a desejar mais e mais, seres egoístas que somos. Vivendo aos poucos é tudo o que podemos fazer. Deixamos o tempo passar porque assim deve ser mas o vazio não é preenchido até nos voltarmos a encontrar com a nossa fonte de alegria.
terça-feira, 10 de julho de 2012
Este parque
Este parque foi feito para vagabundos e marginalizados. Foi construído há tempo suficiente para a chuva corroer tudo o que aqui existe. Aqui habitam estátuas que a chuva não lava, uma fonte que água não abençoa e árvores cuja sombra é uma pobre demonstração de uma ilusão vivida e partilhada. Mas não é inteiramente desolador. Há lembranças e histórias, há relva e flores onde casais apaixonados se deitam no deleite da sua juventude, aproveitando ao máximo o tempo que lhes resta antes de se separarem. Esperam o futuro com olhos esperançados, sem medo do que ainda aí vem. Mas há pausa nos seus corações. Há incerteza e medo. Há silêncio. Acima de tudo, há espaço na sua simbiose.
Neste parque residem espíritos, neste parque residem tempos passados que nem notámos que passavam. Todo o tempo aqui originado, aqui designado para passar, foram maravilhas que ninguém qualificou, foram alegrias que ninguém assim as rotulou. Deixaram-se roubar os minutos, as horas. Agora tudo isso não passa de memórias manchadas com o tempo, alegrias que lentamente deixam de ser relembradas. Quase parece que este parque só traz injustiças mas são as pessoas que o conhecem e o frequentam que fazem as injustiças. Deixam-se guiar pelo destino até a um lugar que não conhecem, apaixonam-se e, quando lhes é mais conveniente, abandonam este lugar. Não há de facto misericórdia no coração dos humanos, deixando assim a própria história ao abandono.
Este parque é o templo de todos os abandonados. Não um templo de deuses e deusas, não um templo de falsas crenças. Um templo de sossego para aqueles que aqui vieram ter pelo acaso e por cá decidiram ficar. Acabaram esquecidos mas esquecidos em conjunto com outros tornam-se relembrados. E através de sombras, sussurros ao vento e histórias que são contadas de ouvido ao ouvido se tornam imortais, tal como estas estátuas que se apresentam imponentes frente a mim agora. Silenciadas, os seus olhos contam mil contos, descrevem mil faces. Elas viram o tempo passar e apreciaram-no, aceitaram sem resignação a sua deterioração. Neste parque elas existem e vivem quando outros apenas cá passam temporariamente, nunca realmente cá vivendo.
sábado, 9 de junho de 2012
Mãe de mães
Hoje sou assombrado com memórias de alguém passado,
Sou apresentado com imagens que vivi e que pus de lado,
Dias passados em que o Sol cobria a superfície que pisava,
Dias em que eu não sabia que o que via era o que precisava,
Um sítio onde não conseguia aguentar as pessoas que o habitavam,
Um sítio a que apenas a uma pessoa pertencia mas tantas lá permaneciam.
Uma pessoa pessoa que de todas as outras sobressaiu e restou,
Um presença forte que na minha mente achou um canto e ficou,
Memória escassa que de forma contínua me ilude o pensamento,
Trazes-me imagens daquela que ainda penso por um momento
E que depois me abandona como alguém do passado que insiste em voltar
E que rapidamente voltou a perder e não me consigo perdoar
Por acções infantis para com aquela que já me sorria
Ainda não sabia ela que nada de mim se aproveitaria.
Mãe de mães que comigo já não estás,
Filho da tua filha, assim me recordarás
Nos dias em que te encontrares perdida
Nesses corredores vazios a pensar na vida.
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Peace
Peace is always hard to be obtained,
It's always too difficult to be attained.
It's always too difficult to be attained.
That goal, that ease of mind,
This but a dream with no ally.
It's a search to no avail,
A villain with higher detail
Focused on his on self
Someday - I hope- will be screaming for help.
But peace is yet another just cause
To those whose interest may arouse.
Arise and let your voices be clear
Shout as loud as you can so everyone hear.
The message that you bring to all
Words that to some may appall,
Let one word be heard, one word to all action cease...
...Peace
sábado, 2 de junho de 2012
Agarrei na noite
Agarrei na noite e deixei escapar
Um suspiro que se deixou levar
Para as profundezas azuis do mar
E nunca mais se encontrar.
Verdade que caminhei
Pelo bosque e encontrei
Palavras que já decorei,
(De alguém cujos lábios nunca saboreei),
Verdades nas sombras.
Para aqueles a quem as trevas assolam
E apenas na luz se consolam
Digo palavras que a nenhuns assombram.
Agarrei a noite e deixei-a escapar,
Às vezes há coisas que mais vale largar
Do que constantemente pensar
E a conclusão nenhuma chegar.
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Sleep
Got to bring them to light, all my mistakes, all the things left unsaid by the night. Death is ever nigh, so eyes aware search the darkness for that infinite, silence sleep. Wide awake, awaiting tragedy without second thought to the irony. Vicariously passing through a loophole in time, letting life escape through the fingers, wondering what has just been seen, accepting the shadows as beings of the same nature. All over the wall light reflects back and leaves unseen the truth. A boy sits and waits, slowly his human nature changes from predator to prey.
Death is an old, ugly man. Face always frowning, ever sad, ever lonely. Seeking company but never obtaining it, it retrieves lives. Methodical, liar, treasonous brother of life. Lover of the sea, it thrusts forward against ships and land, takes all in sight. Coming from ancient times of cold and stone to these days of steel and concrete, it bursts in ignoring all material. It is now in the room and watches with empty eyes the wary boy in the bed, seeking and never finding an answer to his fear. It moves slowly, floating besides the bed, silently. It tilts its head and watches its prey closely, its old face full of wrinkles pushing up in dismay. It has never liked the company of a child. They're too energetic and full of questions. Its old age can barely keep up with its weight, much less with a hurried child always pulling it forward.
So death stared for a while, waiting as the frail boy shivered at the cold that it had brought in. A touch of its hand and it would be over. This boy would have no body, just a soul being carried off to somewhere, doesn't matter where. But it was still a boy's soul and it should remain in the mortal world. So death looked upon him one last time and vowed to return in a few years to find him old and experience, with wrinkles of his own. Only them he would take him and embrace him as a long lost friend. Leaving the room without looking back, death roamed away to another location where a soul would be waiting for it. So the boy went back to sleep, all the fear gone and warmth returned to his body.
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