quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Nesta madrugada

Vem a minha casa Afrodite, deita-te na minha cama, fecha os olhos, deixa-te ir. Permite-me passar os dedos pelo teu corpo, delirar pela tua delicadeza e controlar-me baseando-me apenas na tua voz. Sim, segue o dia lá fora e nós cá dentro somos impacientes para crescer. Sim, somos um paradoxo da nossa existência mas isso não significa que não tenhamos um caminho certo, lembra-te que o fado canta para todos nós. E olha para o silêncio, acompanha-nos sempre, está aqui e ali, dentro e fora de nós, ele é tudo o que preciso para te entender, apenas ver-te os olhos, apenas admirar-te o sorriso, apenas tudo o que és para perceber o que me deste, sim, tudo isto o silêncio é, tudo isto o silêncio me mostra.
A iluminação é escassa, é isso que precisamos. As sombras mexem-se, dançam, cantam, festejam, no final de contas a nossa união é mais um ritual desenhado pelo Universo, até as paredes concordam. E se estas tivessem vozes cantavam dias e noites o que nós falamos, o que nós gritamos, o que gememos. Mas é proibido. É tabu, vergonha, deixamos-nos controlar por uma falsa moralidade da sociedade e escapamos-nos ao seu julgamento com sorrisos tímidos, cabisbaixos, olhares cruzados e dedos a tocarem-se ao de leve para termos certeza de que há apoio e felicidade do outro lado. É mútuo. Mas tão inverso, és tão diferente de mim. És uma Deusa tão ignóbil, milhares de anos que passaram, tantas histórias que contaram mas tão frágil te apresentas perante mim, tão humana. Porque me dedicas a tua imortalidade? É uma imoralidade, respondia-te se me perguntasses. Mas não perguntas, é o nosso velho amigo silêncio que domina a conversa.
Nesta madrugada levanto-me da tua cama e caminho para a tua varanda. É o orvalho habitual que me cumprimenta e embala os pensamentos, alia-se ao horizonte onde o Sol nasce e o mar eterno que já não esconde mais o calor e luz do Sol se apresenta. É um simples pensamento etéreo que me passa pela mente, inspirado em ti, construído para ti, apenas dito para ti. "Nesta madrugada..." e fico a pensar em todas as variantes que podiam seguir para completar esta mensagem. Abandono-te, deixo-te, desiludo-te. Não! Rejeito mais um final infeliz, mais uma derrota sem batalha. Amo-te. Nesta madrugada amo-te e não te deixo mais. Minha Deusa e minha musa, nesta madrugada rogo-te, fica comigo aqui durante o resto da minha mortalidade e percorreremos o mundo depois da minha morte e durante a tua imortalidade antes de te deixar no Olimpo, onde pertences, e seguir a minha viagem pelos sete círculos do Inferno que Dante me contou em sonhos.

1 comentário:

Lizzie disse...

Escreves sempre com uma incógnita que acho piada. Faz um livro e depois falamos!