segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Apricu

Arranquem a pele que me cobre a face para que consiga demonstrar as máscaras que uso para que as lágrima não saiam daqui, não respirem o ar que vem das águas salgadas do mar. Tudo o que desejo, escondo o meu mais profundo prazer nas profundezas da tua escuridão, o reflexo da minha alma na tua sombra. Refundido para o canto do mais distorcido e imoral ser, continuo a provocar a minha figura imortal a mais testes de resistência. Espanco-me até sangrar e mesmo aí continuo porque não estou sequer perto de desmaiar. Deixo-me cair em sono nesta cama feita de pecados e contradições, agarro-me à ínfima hipótese de amanhã acordar com um som acústico que faça a minha vida menos obliqua.
Talvez encontre algo de mim neste lago que contemplo com o fascínio de um rapaz de sete anos quando descobre o verde das folhas e o amarelo da areia. Encontro nesta terra o desafio de ser eu próprio por um segundo e mesmo aí falho. Durante o tempo caí num vazio e dele não quero regressar. Acolhi-me lá, no meu próprio reino de água, onde a traição é a única coisa que consigo fazer para mim e comigo. Deixo para lá palavras de significado algum, recolho-me ao doce toque do infinito negro em que respiro nudez e vomito palavras sangrentas que absorves como parte de ti. Então agarro-me ao pêndulo que se move em cima de mim e circulo por entre estrelas para encontrar um novo canto meu onde possa desenhar textos de cobardia e orgulho. És alquimia no meio do deserto sem esperança.
Sou um rascunho de um livro que deixaste para escrever, sem título, sem personagens, sem moral, sem herói e sem vilão. Estico-me, alargo-me ao máximo para te estender a mão para me impedires de cair para o chão. Então parto-me a meio, o pouco que já sou, encontro uma parede onde dois olhos espreitam uma nova realidade. Reservo-me a meio da queda para o futuro que há-de vir, enquanto que o cristal se parte no chão e a minha alma foge para o papel e lápis de outrem. Há estilhaços de mim espalhados pelo chão da tua alma, espero que guardes todos os pedaços bem, que os preserves com cuidado e que não os deites no lixo. Só aí a minha alma se torna eterna face ao meu corpo imortal defeituoso, tal como tu, e me afundo mais no sentimento das minhas palavras. Um Homem por si não é nada mais que um mero acaso que a Deusa criou para continuar o seu legado ou mesmo para estragar parte de si em guerras e desejos.

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